Quarta-feira qualquer #1
_Velho morto:
Oh sim eu lembro das quarta-feiras, não pela feijoada, caipirinha, sorteio da mega sena; mas pelo sussurro no espírito que dizia, você pode recuperar a semana perdida, se bem que esse conceito de perda nunca é bem definido, correndo pra lá e pra cá, por quê? Pra que? Pois bem, esse dia cuja data não é tão importante quanto o ocorrido, ficou na memória e lhes digo que era só uma quarta-feira.
_Quarto do velho, embora não seja referência em limpeza, não há mofo, ratos ou baratas, apenas paredes mudas e pálidas, uma cama de solteiro, TV, vídeo game, uma estante e um guarda roupa, enrolado nas cobertas o protagonista desperta como um inseto que sai do casulo.
_Velho morto:
Eu acordo e corro para rotina que me conforta mas ao mesmo tempo me prendi, enquanto executo o ritual matinal eu penso se hoje eu vou desviar do caminho pelo acaso ou por vontade própria, uma baguncinha premeditada, eu queria algo que me quisesse tanto quanto os desejos, talvez um espelho que em minha frente não tivesse o meu reflexo, algo apenas que não me fizesse pensar depois, somente uma fuga ao desconhecido, e nisso o relógio corre e estou apenas em uma quarta-feira, com pensamentos desesperados e sem nitidez.
_Bem adiantado trocou-se de roupa, comeu, e refletiu um bom tempo antes de sair para o ofício, levou consigo as dúvidas e uma cara seca para o prédio que o aguarda.
_Velho morto:
Quando olho pro chão por não gostar do que está à minha frente vejo que meus pés estão em cima da mesma merda, uma tentativa de fazer a rotina me prover o que finjo que quero, minha atuação já não está das melhores, eu sei que não sou esse personagem, e eu não posso sair da cena, eu mudo com tanta frequência que as máscaras não cabem em meu rosto, mas tudo bem sempre a um furo no roteiro; vamos encenando até as cortinas fecharem, fazemos os corte, e contaremos só o que importa.
_São cinco horas de teste de fidelidade, as demandas, as pessoas, são como mosquitos voando aleatoriamente em sua volta tirando um pouco de sangue a toda oportunidade, segue um intervalo de uma hora pro campeão tirar o suor do rosto, e finaliza com mais três horas de humilhação, por se mostrar fiel ao emprego e injusto com sua vida, é esse drama que o Velho vive um terço de cada feira na semana; A noite conforta seus sentidos pois é embaixo das estrelas que seus passos o levam para o lar, embora escondidas atrás das nuvens percebia suas presença, assim como o ônibus com a numeração da linha.
_Velho morto:
Eu entro antes que a chuva caia, as luzes da cidade perde feio para os relâmpagos que se alternam entre as nuvens, o céu era o show mais interessante diante dos carros molhados em trânsito, e os pontos de ônibus vazio; gradativamente com o cenário que se transforma ao meu redor, começo imaginar o caos, transformadores nos postes explodindo, semáforos desligados, euforia na pista, veículos colidindo, óleo e sangue começam a pingar sob o som de freios, e as falas de uma multidão apressada…Tiro o rosto da janela do ônibus, me levanto pois o ponto de parada não acendeu… na mesma hora, no mesmo lugar, eu desço, sem nada disso acontecer e vejo que nada passou de uma outra quarta-feira qualquer.
Espero que sua quarta-feira não seja como está...


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